quinta-feira, 19 de junho de 2014

Crônicas de dia dos namorados - Parte Final

Scully checou a hora em seu relógio de pulso e decidiu que já era hora de ir para casa. Ela não teve nenhuma cirurgia naquele dia e ainda era relativamente cedo, mas era dia dos namorados e ela e Mulder haviam criado um hábito de celebrá-lo. Ela gostava disso. Era algo doce na vida deles. E só Deus sabia como eles precisavam de um pouco de doçura.

Na verdade, comparando-se com a vida deles enquanto trabalhavam no FBI, eles poderiam dizer que viviam num paraíso. Eles não viviam mais em hospitais ou sendo constantemente ameaçados e/ou sequestrados, não viam mortes violentas todos dias, nem tinham que lidar com armas diariamente... No entanto, a sombra de tudo o que viveram e o medo do que descobriram naquela época os assombravam ainda, mesmo depois de todos os anos que tinham se passado. Pelo menos eles não tinham mais de viver como fugitivos.

A alguns anos atrás, o FBI os tinha procurado com a proposta de que eles - Mulder mais especificamente -, os ajudassem num caso e assim seus "pecados" seriam perdoados. Não foi justo, claro. Pois eles eram quem haviam sofrido uma grande injustiça e Mulder tinha escapado de um assassinato institucional por muito pouco. O fato é que, mesmo com todos os problemas que tiveram com aquilo, Mulder, como sempre se dedicando demais, quase sendo morto no caso, eles até que emergiram com um saldo positivo. A verdade é que ambos estavam meio estagnados na época e todos aqueles acontecimentos, por mais tristes que tivessem sido, deram um novo ânimo para os dois.

Scully estava tendo excelentes resultados em suas pesquisas no hospital e Mulder andava ocupado sendo constantemente chamado para consultorias para casos que atingiam um ponto sem saída. Nem sempre tinha a ver com algum fenômeno paranormal, uma vez ou outra, ele pedia sua assistência e era até divertido trabalharem juntos novamente com uma intensidade menor do que antes... mas o melhor era que ele estava vivo novamente... seus olhos brilhavam e ele falava daquela forma excitada que ela tanto amava.

Claro que ainda havia aquela grande sombra na vida deles: a falta de William. Aquela era uma dor constante em sua vida, com a qual ela havia aprendido a conviver. Ela sabia que Mulder sentia também, apesar de não deixar transparecer muito para não deixá-la mais triste. O que era inútil. Scully lembrava de seu filho o tempo inteiro... ela o via em cada pequeno detalhe dos pequenos que ela tratava.

Ela balançou a cabeça para afastar aqueles pensamentos depressivos. Abriu sua gaveta e sorriu ao pegar o pequeno pacote com o presente de Mulder. Pensar em voltar para casa para os braços dele e ainda por cima com algo especial em vista era mais do que o suficiente para animá-la. Apesar de todos os percalços, não havia absolutamente nada que a fizesse se arrepender de estar com Mulder. Ela o amava e sabia que ele a amava também. Eles eram o porto seguro um do outro agora, como foram no passado, desde que se conheceram... e cada dia que passava provava que eles permaneceriam assim por muito e muito tempo… 

By Josi.


***

Era dia dos namorados, novamente! Este dia acabou tornando-se um de seus favoritos do ano, ele sempre se esforçava para criar um clima especial, comprar um presente surpreendente para ela… o deste ano ia deixá-la de boca aberta, e com olhos brilhantes, assim ele esperava!

Sim, a vida deles, especialmente na década em que se envolveram com os Arquivos X, foi intensa, difícil, mas ele sentia como se o dever estivesse cumprido. Certamente que eles não acabaram com a conspiração global que investigaram todo aquele tempo. Mas trazia no coração a paz de saber que a expôs junto com sua brilhante parceira, e assim outras pessoas puderam levantar-se a favor da mesma causa. 

Seus demônios estavam exorcizados: encontrou o paradeiro da irmã, descobriu seu pai biológico, que era um dos cérebros da conspiração e foi derrotado, compreendeu o que houve na sua abdução e na da parceira… entretanto, achava que nunca compreenderia o milagre que foi o nascimento de seu filho e de Scully. Onde ele estaria agora? Será que era feliz? Ele sempre pensava… e no quanto seria bom poder ter dado a ele uma vida normal, poder ter a alegria de presenciar aquele pequeno milagre através dos anos....

Mulder e Scully perderam muito, familiares, saúde, muitos aspectos do conforto de uma vida normal, na busca pela verdade. As vezes ele lembrava de sua juventude, de sua ingênua arrogância de que poderia salvar o mundo… ele ainda via o sobrenatural com paixão, entusiasmo, mas agora com mais maturidade e respeito, legado que apenas toda aquela experiência poderia proporcionar.

Durante aquela década de sua busca apaixonada, de idealismo e fortes convicções, eles alcançaram a verdade, durante muito tempo isto o deixou estupefato, com uma extrema sensação de impotência. E a vida dele e de sua amada (como era confortável poder pensar nela assim depois de tanto tempo de negação), se tornou muito confusa uma vez  que ficaram em fuga e depois reclusos, escondendo sua identidade. Algum tempo depois, um caso inexplicável lhes ofereceu as pazes com o FBI, e o fato do mundo não ter sido invadido por alienígenas em 2012, lhes mostrou que nem sempre os planos do mal são cumpridos, nem tudo está definido. Que ainda há esperança!

Isso lhe trouxe paz de espírito, pensava que a busca que ele começou, ganhou adeptos e muitos lutando pelo mesmo ideal, e que podiam mudar a realidade. Pensava que seu filho em algum lugar do mundo, crescia feliz e em paz, sem sequer imaginar todos aspectos que envolveram a vida dos pais biológicos e seu nascimento. A escuridão agora não os encontrava mais, pois eles a expulsaram de sua alma… olhavam para ela quando aparecia algum caso de detalhes sinistros, sem se entregarem em seus tentáculos… depois de tantos anos, aprenderam a viver com leveza.

Ele ficava feliz por terem saído da obscuridade, ele sabia que sua amada sentia falta da sua mãe e de Mônica, que se mostrou uma amiga verdadeira desde o primeiro dia que se viram até hoje… talvez pelo fato dela lembrar tanto Melissa, talvez por ter ajudado no parto de William, as duas tinham um elo de amor fraterno que fortalecia com o tempo. Scully sempre teve dificuldade de se apegar afetivamente às pessoas, mas durante os anos em que ele esteve longe, Monica e Dogget conquistaram sua confiança e afeto, e ele ficava feliz por esta convivência agora não ser mais proibida ou perigosa.

As vezes ele pensava, se devia se sentir infeliz, agora, tanto tempo depois, por tudo que aconteceu: a vida infeliz de seus pais, a perda e a tragédia da irmã, seu pai biológico ter sido seu pior inimigo, os assassinatos de Melissa, dos Pistoleiros Solitários, Garganta Profunda e tantos outros… de ter perdido o emprego no FBI, ter sido obrigado a dar o único filho com a mulher que mais amou na vida para adoção para sua própria segurança… mas ele se sentia apesar de tudo privilegiado… abençoado por ter visto tanta coisa, por não ter ficado calado perante as injustiças, e por acima de tudo, por mais romântico e piegas que parecesse, ter encontrado o amor de sua vida, e saber que apesar do preço que pagou, nada em sua vida se comparava à presença daquela mulher, que por acaso entrou por sua porta, mas que não por acaso, nunca mais saiu de sua vida…

By Cleide.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Crônicas de dia dos namorados - Parte IX

Lugar desconhecido. 2002.

Mulder olhava para a sua xícara de café sem realmente vê-la. Seus pensamentos estavam muito longe do pequeno restaurante onde ele se encontrava no momento. Sua mente estava inteira em Scully e seu filho. Onde eles estavam e o que estariam fazendo naquele momento? William era ainda tão pequeno... tão injusto ele já estar passando por tantos problemas. Tudo o que ele mais queria era estar com eles.

Durante muito tempo, aquilo era tudo o que Scully e ele tiveram: um ao outro. Mesmo quando eles lhes tiravam os Arquivos X, Mulder poderia dizer que ele ainda tinha a sua parceira ao seu lado. Ele sabia que havia tomado a decisão correta, mas isso não diminuia sua dor; muito menos os poucos emails que conseguiram trocar. A última tentativa de contato que tiveram foi naquela estação de trem, onde tudo havia dado errado. Ele havia recebido a resposta carinhosa dela, mas não tinha tido coragem de arriscar mandar algo de volta.

Seu sentimento não mudou em nada. Ele queria voltar pra casa. Para Scully, para William. Mas os acontecimentos apenas contribuíam para piorar sua situação. Ele não poderia deixar que o seu egoísmo, sua solidão colocassem a todos eles em perigo.

Suspirando, ele passou a mão no rosto e olhou ao seu redor. Foi quando notou um jovem casal numa mesa de canto. Eles estavam comemorando alguma coisa... "Oh"

Era dia dos namorados? Já? Sim... já fazia mais de um mês que ele mandou aquela mensagem para Scully. Lembrou-se daquele dia a dois anos atrás que passaram juntos em Cape Cod. Parecia uma outra vida. Tanto havia se passado desde então...

O ideal era que estivessem todos juntos. Desta vez, poderiam sair e jantar em algum lugar bonito, passear depois com seu bebê, trocar presentes bem humorados... Infelizmente, nada daquilo era possível. Ele tinha que se concentrar naquilo e aumentar seus esforços para encontrar uma saída para as ameaças que os mantinham separados.

Pensou em Scully, sozinha com William... não, ela não estava exatamente sozinha. Ela tinha Doggett e Mônica... e os Pistoleiros... e Skinner. Aquilo o consolava: saber que eles tinham pessoas em que podiam confiar naquele momento difícil.

Uma ideia lhe ocorreu de repente. Ah, sim... havia algo que ele podia fazer. Ele já tinha terminado o que tinha ido fazer naquela cidade mesmo. Bastava que ele viajasse um pouco para um lado, mandasse sua mensagem e voltasse pelo outro lado e ele poderia fazer uma pequena surpresa para Scully.

"Ah, Scully..." Ele sorriu, saindo do restaurante imediatamente para que tudo desse certo. Imaginar o sorriso dela ao receber sua pequena surpresa o deixou um pouco mais feliz. Eles podiam não estar fisicamente juntos e ele podia não ter mais o seu trabalho, mas ainda estavam vivos e ainda tinham um ao outro. Ainda havia esperança.

By Josi.


***

Washington, DC. 2002.

Tinha acabado de amamentar William e ele dormia tranquilo em seus braços, em paz, feliz… simplesmente satisfeito! Como se nada mais houvesse no mundo, como se eles dois ali bastassem. Scully ainda não se acostumara a esta realidade. Para ser honesta, cada vez que olhava para seu filho, pensava no quão milagrosa era aquela criaturinha que carregava nos braços e em todos os acontecimentos que a levaram até ali… os Arquivos X, seu sequestro, quase morte por câncer como uma queima de arquivo, sua sobrevivência tão misteriosa e quase miraculosa também, descobrir que era estéril… e ainda saber para qual fim seus óvulos roubados estavam servindo, conhecer Emily e não poder adotá-la, tampouco salvá-la.

Scully tinha derramado tantas lágrimas, tantas noites chorou sozinha até dormir pensando que estava fadada, por tudo que fizeram com ela, à tristeza de não poder ser mãe. E então a vida quase lhe nocauteia com um acontecimento destes: estava grávida - e Mulder desaparecido, pior, abduzido… se um sequestro já era dramático, o quão pior era ter sido levado pelo desconhecido, sem muitas possibilidades de sequer por onde começar a procurar. Ela lembrava o quanto se sentiu impotente naqueles primeiros meses de sua gravidez. Agora, contemplando o rosto do amado filho, percebia o quanto ele parecia com Mulder, como tinham a mesma maneira de olhá-la, como isto era possível? Quando ele a olhava assim a saudade doía mais fundo. 

Infelizmente, ela não se acostumava com esta realidade tão dolorosa. Quase o perdeu há menos de um ano, passou pelo pesadelo de participar de seu funeral, de uma maneira inimaginável conseguiu salvá-lo de se tornar uma réplica alienígena, mas agora, estavam separados pela força dos acontecimentos. Era muito perigoso, nunca fora tão perigoso… mas seria seguro para ela e o seu filho? Ela seria capaz de prosseguir protegendo-o sem Mulder? Só sabia que sua vida, olhando para trás, parecia uma coleção de momentos tristes salpicados com algumas alegrias muito profundas e emoções inexplicáveis que lhe davam a sensação nostálgica de que, se fosse preciso, faria tudo de novo!

Com muita tristeza uma música romântica no rádio a lembrou que era dia dos namorados… onde ele estaria? Será que algum dia nesta vida, ainda poderiam compartilhar os três a alegria de comemorar juntos o dia do amor? Uma lágrima solitária escorreu de seus olhos, caindo no rostinho tranquilo do bebê, ela levantou-se e foi colocá-lo no berço… com William devidamente acomodado, escutou que alguém batia na porta. Ao abri-la, ficou surpresa: era um entregador de pizza - “Eu não pedi pizza” - “O senhor que fez o pedido, disse que a senhora desejava sim uma pizza, ah, ele disse que você irá pagar”. Irritada e cansada, querendo se livrar logo da chateação, Scully pagou a pizza, pegou a entrega e fechou a porta.

Curiosamente a caixa estava mais leve do que deveria... ao abrir, o inesperado, uma única rosa vermelha e um pequeno bilhete: “Gostaria de estar com você e William no dia dos namorados, te amo!” 

By Cleide.


sábado, 14 de junho de 2014

Crônicas de dia dos namorados - Parte VIII

Washington, DC. 2001.

Scully estava no escritório dos Arquivos X desde bem cedo. Tinha trabalho para fazer e a distração era mais do que bem vinda. Honestamente, ela não sabia mais o que fazer. Eles já tinham tentado de um tudo, já tinham investigado cada detalhe, cada pista, tinham revisto cada pormenor... mas ela não desistiria. Não podia desistir. Ela tinha que trazer Mulder de volta. E pra tornar tudo ainda mais complicado, ainda tinha que equilibrar sua busca por ele com seus cuidados com sua gravidez.

Ela evitava pensar muito em tudo o que estava acontecendo, basicamente porque as possibilidades lhe inspiravam um terror imenso. Mulder havia passado mais de 25 anos na busca pela sua irmã... ela não sabia como ele suportou aquilo. Ela estava sem ele há meses apenas e já quase não aguentava mais aquele sentimento de impotência. Quanto à sua gravidez... se ela soubesse como aquilo tinha sido possível, talvez ela pudesse passar a encará-la como uma dádiva. Ela havia feito todos os exames necessários há alguns anos atrás e estava mais do que comprovado que ela era estéril. A agente havia até mesmo tentado junto com Mulder uma fertilização com os óvulos que ele havia recuperado na época em que ela estava doente, mas não tinha conseguido nada. E agora... essa gravidez aparecia do nada? Até agora tudo parecia ok com ela e com o feto, então... o jeito era esperar.

Pensar na gravidez a fez lembrar que tinha que comer. Saiu em busca de Doggett. Eles tinham caído numa rotina de almoçarem juntos, com sua desconfiança com ele tendo se dissipado a muito tempo. Ela precisava mesmo de alguém para ajudá-la a suportar tudo aquilo e o rapaz estava se revelando um agente muito competente e um bom amigo.

Quando estava no hall, se deparou com a mesa de um recepcionista com uma decoração discreta de Dia dos Namorados. Uma grande tristeza tomou conta de seu ser e ela teve que piscar algumas vezes para evitar que lágrimas caíssem de seu rosto. A última coisa que ela queria era colocar ainda mais lenha no falatório do bureau sobre ela e Mulder. Se a fofoca se tornasse muito forte, eles poderiam tirá-la da frente das investigações. Isso não podia acontecer. Respirou fundo, se dominando.

Nos últimos anos, eles tinham dado um jeito de ao menos trocar presentes nessa data. E agora ela sequer sabia onde e como ele estava. Fez uma nota mental para comprar um cartão bem humorado para quando ele voltasse. Porque ela o encontraria e o traria de volta para casa. Era uma promessa. E quando ele estivesse com ela novamente, eles comemorariam, não importa o quão atrasados estivessem.

By Josi.


***

Ele não conseguia acreditar… até hoje, passados uns meses, quando contava o que lhe aconteceu, parecia estar falando da história de outra pessoa. Foi abduzido, devolvido supostamente morto, e ficara enterrado por meses… era um roteiro do pior dos pesadelos, mas ele não se lembrava de absolutamente nada. Quantas vezes se irritou com Scully quando ela era enfática em dizer que não lembrava nada de sua abdução, que não tinha como provar nada, por que sequer conseguia processar em sua mente o que tinha acontecido, como poderia afirmar que era verdade? Agora ele entendia, do fundo da alma, como era ter parte da própria vida roubada de si mesmo, a sensação era horrível…

Depois de terem passado meses tão agradáveis juntos, era insuportável pensar no desfecho final… é como se para cada pequena alegria, ele e Scully tivessem que pagar dobrado na moeda do sofrimento. Mas novamente, lá estava ele, vivo como por um milagre, teria ele ainda alguma missão no mundo? As coisas pareciam tão mudadas agora que voltou… outras pessoas fazendo seu trabalho com a parceira. E ela mesmo, parecia ter outro foco e outras preocupações, estava, para sua supresa, grávida! Vários paradigmas foram quebrados enquanto ele esteve “morto”!

Se pegava sempre pensando que, se ele não lembrava de nada, Scully teve que derramar todas as lágrimas amargas deste tributo, sozinha, sem saber o que estava acontecendo com ele, e quando a espera e busca acabou, ela ainda teve que “enterrá-lo”. Ele mesmo, não sabia se teria conseguido manter a sanidade mental, se fosse o oposto. E ainda no estado em que se encontrava, uma gravidez no mínimo milagrosa, sonhada, bem vinda, mas que levantava questionamentos perigosos, incômodos…

Quantos momentos únicos ele perdeu enquanto estava fora? Mas se agora estava vivo, por que não retomar seu lugar na vida dela e no mundo, e compensar tanto tempo que lhes foi roubado?

Com este pensamento, se levantou de seu apartamento vazio e sem vida, e seguiu em direção à casa dela, pretendia comemorar o dia dos namorados, natal, aniversário… tudo que eles mereciam, não deixaria que lhes tomassem nenhum minuto.

By Cleide.

Obs: Ignoramos totalmente a timeline da série para que coubesse um dia dos namorados nesse ano. ;-)

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Crônicas de dia dos Namorados - Parte VII

Massachusetts.2000.

Scully ficou surpresa quando Mulder a convidou para um fim de semana “romântico” em Cape Cod... bem, a idéia de romance dele não era muito convencional, mas devia admitir que até agora fizera um bom trabalho. Ao contrário dos motéis baratos em beira de estrada onde eles se hospedavam a trabalho, ele reservou – para sua surpresa  – um belo chalé com vista para o mar. Caminhavam em paz no entardecer e pretendiam encerrar o passeio com um jantar especial de frutos do mar perto do solitário farol.

Na bela cidade, vizinha da região onde ele cresceu, eles podiam fazer longas caminhadas por praias desertas, assistir ao pôr do sol silenciosamente, visitar museus quase vazios, sem que ninguém se importasse que eles fossem um casal... Agora eles eram um casal, como poderia imaginar uma coisa desta há alguns anos?

Ultimamente sempre se lembrava do tom profético que Melissa gostava de utilizar quando o assunto era Mulder.  Sim,  ela ainda o chamava de “Mulder”, para ela era mais íntimo que Fox... Contudo, apesar dos meses felizes – quem diria – que eles estavam passando, esta alegria precisava ser guardada só pra eles, disto muitas vezes dependia  a sua segurança e de quem estava próximo.

É fato que relutaram por muito tempo, e “dançaram” em torno desta verdade, mas é necessário compreender que não é fácil sustentar um relacionamento afetivo em uma atividade de risco como a deles. Mas também chegou o momento de admitir, que amor não se escolhe, acontece, às vezes – muitas vezes – nos lugares mais improváveis, até inconvenientes.

Como eles se demoravam a admitir, a vida seguiu seu rumo e mostrou que certas verdades não ficam escondidas para sempre, e neste caso, o seu mensageiro foi o misterioso escritor Padget: “Em meu livro escrevi que agente Scully se apaixonava, o que é obviamente impossível, por que a agente Scully já está apaixonada”... o que ela podia dizer depois disto? Existem alguns momentos cruciais na vida da gente, em que uma linha é traçada e não se pode mais voltar atrás... foi assim quando ela cruzou aquela porta no porão do FBI, foi assim quando Padget proferiu estas palavras inexoráveis.

Ela tinha que confessar, que fazia tempo que não se sentia tão bem! Apesar de todas as perdas, da impossibilidade de vir a ser mãe e dos acontecimentos recentes com Mulder – o suicídio de sua mãe e a descoberta de toda verdade sobre Samantha. Dizer e ouvir a verdade sobre os sentimentos que dividiam, trouxe uma leveza , alegria  e intimidade que ela não pensava ser possível na vida, no trabalho dos dois, e este dia dos namorados, singelo, tranquilo e especial, era a prova incontestável disto... podia dizer que se sentia plenamente feliz naquele exato momento, vendo o sol se por no mar…

By Cleide.

***

Era madrugada e apenas uma luz fraca que vinha da janela iluminava o quarto. Eles estavam deitados assim fazia algum tempo, com ele a abraçando por trás... o suor secando em suas peles...

Houve um tempo em que Mulder achava que seria estranho entrar em um novo nível de intimidade com sua Scully. No entanto, havia sido tudo tão... natural. Talvez pelo fato de que eles já eram tão íntimos intelectualmente e nunca tiveram realmente problemas em invadirem o espaço pessoal um do outro. Na verdade, agora eles se sentiam mais livres um com o outro e tudo parecia mais leve, inclusive o trabalho.

Claro que eles ainda tinham momentos muito tensos. Ao contrário do que diz a imensa maioria dos filmes de romance, começar um relacionamento amoroso não transformava sua vida magicamente, apenas adocicava alguns momentos. E ajudava que ele estava estranhamente em paz. Cerca de 25 anos depois, Mulder finalmente tinha encontrado sua irmã. Não foi a forma como ele sonhou, mas ao menos ele sabia que Samantha não estava sendo torturada ou usada em experimentos alienígenas... A nuvem que pairava em sua mente mesmo era o que tinha acontecido com sua mãe, o que ainda lhe causava uma dor imensa, mas não havia nada o que fazer além de aceitar e deixar o tempo fechar a ferida… e era o que ele estava tentando fazer.

Ele suspirou. Apesar dos pesares, a vida estava sendo boa para ele pela primeira vez em muitos anos. Melhor aproveitar enquanto durava... e ele faria de tudo para que durasse e para que a mulher em seus braços continuasse segura. Ele sorriu pensando que esse trabalho não era tão difícil assim quando ela sabia se defender muito bem e ainda o tirava de encrencas continuamente.

Seus divagações foram interrompidas com um tapa leve no seu braço.

"Se aquiete. Não consigo dormir assim!" Scully falou fingindo irritação.
"As suas melhores noites são comigo, agente, confesse" Ele falou enquanto a apertava mais firmemente.
"Não por que eu durmo melhor" Ela respondeu com uma risada. Mulder riu junto e a beijou no pescoço.
"No que você está pensando?"
"No de sempre... nos limites do universo, no último jogo dos Knicks, como eu consegui enrolar minha bela parceira a ir para a cama comigo..."
"humm... Então estou apenas sendo enrolada?" Ela falou virando um pouco para olhá-lo, levantando as sobrancelhas.
"uhum..."
"Todo esse tempo?"
"Eu não antecipei que você seria tão viciante..."
"Ok." Ela falou com outra risada.

Ficaram calados por alguns instantes. Ele continuava com o queixo apoiado no ombro dela e ela se ocupava acariciando o braço dele, ambos perdidos em seus próprios pensamentos até que ela se mexeu para vê-lo melhor. 

"Foi bom tirar esse tempinho de folga, não é?" Ela falou, passando a mão nos cabelos dele e o olhando com uma expressão doce.

"É bom passar mais tempo com você sem ter que fingir que nada mudou..." Ele respondeu com sinceridade. Haviam combinado que fariam de tudo para que o relacionamento deles não fosse descoberto no FBI. Tudo bem que eles estavam na boca do povo desde... muito tempo, mas eles não podiam assumir nada sem que a credibilidade do trabalho deles fosse questionada. E ambos sabiam que eles só queriam uma pequena desculpa para derrubar os Arquivos X novamente.

"O importante é que estamos juntos" Ela falou com aquele sorriso que era reservado apenas para quando ela abaixava todas as suas defesas e levantou um pouco para beijá-lo de leve nos lábios. Ela afastou-se um pouco, mas ele a seguiu e aprofundou o contato. Eles já estavam a meses juntos, mas ele nunca se cansava de beijá-la. Era sempre tão raro que eles tivessem aquela oportunidade...

Mulder separou os lábios dos delas apenas alguns milímetros e sussurou "Graças ao Padget". Ela gemeu com desgosto, escondendo o rosto no pescoço dele e ele ouviu um "estraga prazeres" abafado. Ele riu com ela um pouco, mas ficou sério de repente...

"Eu amo você, Scully" Ele falou devagar, se afastando para olhá-la nos olhos.
"Eu também amo você. E Mulder? Nós eventualmente encontraríamos o caminho um para o outro. Com ou sem Padget." Ela afirmou categoricamente e ele sabia que aquilo era verdade. Ela o beijou de novo e virou-se na cama o puxando com ela, voltando à posição que estavam antes.

Alguns momentos depois, ambos dormiam... embalados pela certeza de que o outro estava seguro em seus braços.

By Josi.