sexta-feira, 6 de junho de 2014

Crônicas de dia dos Namorados - Parte I

WASHINGTON, DC. 1994.

Um suspiro meio exasperado foi ouvido na pequena sala, quebrando a monotonia do barulho da tv. Quem diria que só haveria filmes românticos por todos os canais? E Mulder queria apenas ver uma coisa qualquer para esquecer os eventos de seu último caso. Maldito Barnett. E sua parceira quase levara a pior… não fosse por aquele colete a prova de balas…

Ele apertou os olhos bem fechados para afastar a lembrança de Scully estirada no chão com uma bala no peito. Sua bela e divertida parceira… Olhou de volta para a tv onde passava uma propaganda que pretendia convencê-lo a comprar algo rosa e fofo (e caro) para um alguém importante em sua vida… Scully.

Há muito tempo não havia uma presença feminina tão constante em sua vida. Acostumara-se com a solidão, na verdade, quase forçara-se a isto, desde que descobriu os Arquivos X, nos porões do FBI, Fox Mulder, agente brilhante que se destacara especialmente a traçar perfis psicológicos de criminosos violentos, se encarcerara nos mesmos porões, e acreditava “voar abaixo do radar”... pelo menos era o que ele pensava. Entretanto, há alguns meses, ele tinha percebido que nunca deixaram de o observar, e mais, ele devia ter realmente encontrado algo que não deveria ter sido percebido, pois enviaram-lhe uma parceira. Dana Scully.

A esta altura, fazendo uma retrospectiva desde aquele primeiro olhar que trocaram, Mulder confessava a si mesmo uma admiração profunda por aquela mulher, que lhe adentrara a porta fazendo questionamentos um tanto inconvenientes e desafiadores. Inicialmente, ele a julgava uma espiã, má intencionada apesar de muito inteligente, mas não foi preciso investigarem mais do que um caso juntos para que os muros que ele tinha erguido fossem derrubados. Ela era incansável no trabalho, suas questões levaram as investigações de Arquivo X para níveis de aprofundamento que ele sequer imaginava. Ela era irritantemente céptica, verdade, mas sua tendência à lógica e à ciência proporcionaram que ela fizesse perguntas que ele, apesar de sua mente extremamente detalhista, não faria se ela não estivesse ali.

Eles passaram meses intensos juntos… (espera… seria um ano já? Ele não conseguia lembrar de como ele passou o último dia dos namorados… nos porões do FBI, provavelmente…) em apenas alguns casos solucionados, Mulder enfrentara suas maiores fobias, amores esquecidos em um passado distante, correram juntos o risco de morrer mais de uma vez, a viu ter que encarar a morte de seu pai com a força e equilíbrio de uma heroína... Mulder sequer imaginava que ele confiaria em alguém novamente como ele confiava nela.

No entanto, ele, que deixara o romantismo há muitas páginas passadas no livro de sua vida, se pegou imaginando se, naquele momento, algum outro homem teria a atenção daquela mulher discreta e bela, se ela trocaria presentes com algum pretendente misterioso… Scully tinha um namorado? Eles viveram momentos tão intensos juntos e conheciam tão pouco os bastidores da vida um do outro. Por um momento, Mulder se sentiu um pouco mais solitário do que o de costume.

Ele olhou de volta para a tv meio desolado e seu olhar recaiu sobre uma fita cassete, de uma capa de gosto duvidoso, abandonada a algumas noites atrás. Talvez seu dia dos namorados não estivesse totalmente perdido.

***
    
"Deixa eu ver se eu entendi. Você achava que eu estava em um encontro, então resolveu me ligar? Você sabe que eu não teria atendido ao telefone se esse fosse o caso?" Um enorme sorriso iluminava o rosto de Scully enquanto ela falava com sua querida irmã.

"A ideia era que você NÃO atendesse ao telefone, maninha!"

"Lógica nunca foi o seu forte. Eu poderia estar trabalhando também..." Ela ouviu o longo suspiro de Melissa do lado da linha.

"O que você chama de falta de lógica, eu chamo de pensamentos positivo. Você não pode se esconder em seu trabalho para sempre, Dana! Há vida além de seus livros, pesquisas, ciência e procedimentos lógicos, sabia?"

"Bom, você não pode dizer que eu não tent..."

"Aquilo não pode ser considerado uma tentativa. E já fazem meeeeeeeeses!"

"Eu tenho trabalhado muito. Ainda não tenho ideia de como vou fazer o relatório do último caso em que trabalhei. Além do mais..." ela continuou antes que sua irmã pudesse interrompê-la. "Ah, Melissa, você sabe que eu não estou com cabeça pra essas coisas desde a morte de nosso pai..." Ambas ficaram em silêncio por alguns instantes relembrando o querido pai que havia falecido a pouco mais de um mês atrás. A ferida ainda estava bem aberta...

"Bom, seria bom uma distração, não é? E sempre há o seu parceiro bonitão... Vocês podiam ao menos fazer companhia um ao outro..."

"Mulder? Ah... sim... ele provavelmente me daria um cartão em forma de um alienígena! Agora... por que VOCÊ não volta para o seu encontro e me deixa com meu relatório?"

"Dana, Dana..." Melissa suspirou. "Eu vou, mas não pense que eu desisti de você." Ela fez uma pequena pausa. "Eu te amo, viu?"

"Também amo você."

Scully desligou o telefone, mas não voltou ao seu relatório. Salvou o que estava fazendo, se é que as duas linhas que ela tinha conseguido escrever em duas horas eram dignas desse cuidado, e resolveu fechar a noite com um copo de vinho e um bom livro. Ela merecia, não é? Afinal, era dia dos namorados.

Algum tempo depois, o livro jazia esquecido ao lado da taça meio vazia de vinho enquanto Scully se perdia em seus próprios pensamentos. Claro que ela se sentia solitária. Sua única companhia nos últimos tempos era o seu trabalho. Como foi seu último dia dos namorados mesmo? Claro... Ethan. Foi a primeira e última comemoração deles. Saíram para jantar e passaram a noite juntos. Ela quase não acreditava que tinha se passado apenas um ano desde aquele dia. Ela entrou nos Arquivos X alguns dias depois e logo não havia espaço para mais nada em sua vida. Ela bem que tentou namorar de novo, mas seu último encontro às escuras foi tão entediante! O trabalho com Mulder era muito mais interessante.

Mulder.

"Ah, Mulder, você ainda vai me enlouquecer." Ela riu um pouco pensando que, se sua irmã a ouvisse, não a deixaria em paz. Mas não, não havia nada de romântico em seus sentimentos com relação a Mulder. Ela era bonito e interessante, ela deveria ser cega para não notar isso, e ela ainda nutria uma admiração profunda pelo caráter dele e pela paixão que ele colocava em seu trabalho... mas alimentar aquele tipo de coisa pelo seu parceiro ainda mais viciado em trabalho do que ela só a deixaria ainda mais frustrada. Fora que o gosto dele por mulheres era muito duvidoso, se é que ela podia julgar pelo pequeno exemplo que ela teve em Phoebe. Eu realmente não posso julgar. Meu ex namorado quase me matou enquanto estava supostamente possuído pelo espírito de um criminoso.

Não pela primeira vez, ela deixou seu pensamento vagar pelos casos que eles tinham resolvido ao longo desse tempo, a desconfiança inicial que rapidamente se dissipou dando lugar a parceria já tão sólida que eles tinham (apesar dos relatórios que ela tinha que fazer de cada caso deles). Não era atoa que ela via um ano atrás como algo tão longínquo... Eles tinham passado por tantas coisas juntos, salvaram a vida um do outro diversas vezes... e trabalhar com ele a fazia questionar suas convicções mais profundas. Ela se sentia tão diferente daquela mulher que desceu até aquele porão com uma missão não muito agradável. E sua visão de Mulder também havia mudado consideravelmente.

Ela piscou os olhos e olhou ao redor para o apartamento vazio e quieto. Humm… O que ela precisava era de mais vinho e continuar sua leitura. Talvez uma boa música ajudasse a levantar o seu astral também… junto com um banho quente! Ok. Vivaldi ou Bach?, ela pensou enquanto levantava e tomava o cuidado de levar sua arma consigo para preparar o banho. Afinal, nunca se é cuidadosa demais quando pessoas como Tooms poderiam estar soltos por aí.

7 comentários:

eloisa viana disse...

Ei meninas, tudo bem?

Conheci o blog em uma busca pela verdade (queria um guia de temporadas da 8° e 9°) e desde então não faço maratona apenas dos episódios, mas também dos posts de vocês.

E confesso, é ótimo saber que ainda há uma pequena legião de fã espalhados que tiveram as mesmas sensações, pensamentos e ideias que permearam minha mente enquanto ansiava por cada segundo de história de XF.

Quanto a crônica? A-P-A-I-X-O-N-A-N-T-E como nossos agentes preferidos.

Vocês conseguiram captar o clima dos dois e fiquei até com gostinho de quero mais depois de terminar.

Como será uma crônica lá pelo 6° ano???

Fico aqui roendo as unhas de curiosidade ;)

Milene Silva disse...

Amei tudo isso garotas. Nossa já estou bastante ansiosa pela continuação. Vou confessar uma coisa pra vcs, fico todo mês aguardando o proximo post para poder me deliciar com o texto maravilhoso. Bom fico no aguardo da segunda parte roendo ad unhas igual a Eloisa. Bjos meninas vcs sao de +++++++

Anônimo disse...

Pra mim que sou shipper de carteirinha,daquelas que vê romance em tudo...tô adorando.

Esperando ansiosamente por mais..


Yanne

Cleide disse...

Meninas, continuem comentando! É muito importante o feedback pra gente! Obrigada!!!

Lívia Ribeiro disse...

Nossa!!Fazia tempo que não deixava um comentário aqui....mas a crônica está de tirar o fôlego! Vcs se superam a cada post....e me fazem morrer de saudades de Arquivo X! Parabéns! :)

Cleide disse...

Livia, que bom que você está gostando! Ainda haverão várias esta semana!

Não sinta saudades, faça uma maratona!!! ;)

Josilene disse...

Lívia! Saudades de seus coments!

Saudades do pessoal que some. sniff

Bom, ver que vcs gostaram de nossos textinhos nos fez muito bem, gente. Nem eu nem cleide temos um pingo de experiência em escrever fics e estávamos nervosas em entrar nesse projeto, mas se vcs gostaram e se animaram é pq não foi perda de tempo. *.*

Valeu e continuem comentando! E tb vao falando onde concordam ou discordam de nossa visão! Vamos discutir nossos headcannons. kkkk

Beijos!