terça-feira, 10 de junho de 2014

Crônicas de dia dos Namorados - Parte IV

Washington, DC. 1997.

Entardecia em Washington e ele caminhava pela cidade. As cores do crepúsculo caiam sobre a cidade, tingindo os prédios de dourado, laranja, vermelho… e finalmente a noite chegou. Ao perceber isto, Mulder observou que caminhara muito mais do que imaginara, andara sem rumo… da mesma maneira que se encontravam suas emoções e sentimentos naquele momento - sem rumo.

“Eu sei do que tem medo, eu temo a mesma coisa”, as palavras teimavam em ecoar na sua cabeça, voltando sempre ao foco, juntamente com o rosto de Scully, olhos marejados, lágrimas que teimavam em cair apesar de seu esforço em segurá-las. Ele se sentia péssimo por ter brigado com ela, já bastava toda tristeza de ser diagnosticada com um câncer terminal - que apesar dela esconder bem com seu incansável profissionalismo ele sabia que ela sentia - teria ela que suportar a estupidez de um parceiro desesperado? Sim, era assim que ele se encontrava, procurava parecer uma fortaleza na frente dela, mas ele estava totalmente devastado, falhara em proteger Samantha no passado, pensava que agora seria capaz de cuidar de sua parceira lealmente, e fracassou, mais uma vez. Como lutar contra um inimigo destes? Devia haver uma maneira de salvá-la! Estes eram os pensamentos obsessivos que o perseguiam, o dia todo, noites insones afora… 

Sempre soube que Scully era mais equilibrada do que ele, passando até mesmo muitas vezes dos limites da organização e racionalidade, mas a coragem dela perante esta crise e da possibilidade muito próxima de enfrentar a morte inevitável, o deixavam assombrado. Ele não sabia como seria viver sem ela, trabalhar sem ela… não queria pensar nisto, tinha que haver uma cura!

Perdido em pensamentos, Mulder percebeu que estava diante de uma banca de revistas, a lateral encontravam-se cartões de todos os tipos - Isto lhe trouxe um novo pensamento: o de que ele nunca deu a Scully um mimo de dia dos namorados. A possibilidade de que no próximo ano, Scully não estivesse viva para a data esfriou sua alma, mas ao mesmo tempo, uma idéia afetuosa lhe ocorreu: por que não torná-la feliz no momento presente? Por que não permitir-lhe uma pequena alegria?

Com este pensamento amoroso, Mulder comprou um cartão que achou bem humorado, pagou por ele ao atendente da banca, assentou-se em um banco numa praça próxima, e fez sua dedicatória. Levantando-se fez sinal ao primeiro táxi que passou, “Por favor, me leve a Georgetown.”

By Cleide.

***

Ela sequer olhou para o cartão por uns instantes. Apenas encarou a Mulder com uma expressão estupefata enquanto ele dizia que pretendia ter-lhe entregue aquilo ontem a noite, mas não a encontrou em casa.

“Algum encontro?” Ele perguntou com um sorrisinho brincalhão.

Scully estava meio sentada, meio encostada na escrivaninha de Mulder relendo alguns relatórios quando ele entrou no escritório dizendo que tinha uma surpresinha para ela. Enquanto ela pensava que não estava realmente preparada para sair em outra busca pelo paranormal dado que eles voltaram da última a apenas alguns dias e foi… bom… foi emocionalmente desgastante - como têm sido os últimos casos deles na verdade -, ele tinha lhe entregado o presente.

"Você não pode estar sendo sério… um cartão de dia dos namorados?" Ela falou bem devagar, ignorando sua pergunta. "E, nós nem estamos na época correta! Já estamos em junho sabia?"

"Ah, Scully, você não sabe se divertir? O que vale é o sentimento e nem todos os países celebram a data em fevereiro" Ele retrucou com sua usual expressão convencida.

Ela finalmente prestou atenção no pequeno mimo. Era… interessante. Ok ok… ela cederia, era muito doce da parte dele. Ele lhe deu um cartão com a palavra “valentine” montada com elementos da tabela períodica. Ela sorriu - riu na verdade - desarmada.

"Ok, mas…" - Ela se interrompeu e o encarou. "Obrigada. Mas realmente você não precisa lembrar e compensar cada data comemorativa apenas porqu-"

"Não, não. Não é isso. Eu só achei que tivemos momentos bem tensos recentemente e quando vi isso daí achei que você podia achá-lo engraçadinho. Encare isso como uma bandeira branca." Ele falou enquanto se encostava na mesa junto com ela e a encarava.

Ela fechou os olhos e sorriu, balançando a cabeça. Os últimos meses têm sido horríveis. Primeiro, eles se desentenderam e então, ela teve a confirmação de seu câncer, que não tem melhorado em nada realmente. E para completar os casos não ajudavam… aquele com os “fantasmas” das meninas mortas não saiu da sua cabeça ainda. Ela tinha certeza de que tudo aquele tinha sido fruto de sua imaginação e estar doente aumentava sua sensibilidade. E Mulder ainda tinha desaparecido para se colocar em perigo em mais uma tentativa louca de recuperar sua irmã. Sim, ela poderia usar de um pouco de doçura em sua vida.

Ela olhou para os olhos dele e sorriu com sinceridade enquanto entrelaçava sua mão à dele.

"Obrigada. É mesmo bem bonitinho."

Eles passaram alguns segundos apenas se olhando até que ele quebrou o momento levantando da mesa para sentar-se em sua cadeira. Ambos já tinham voltado ao trabalho, com ela sentada no seu cantinho do outro lado da sala, quando ele soltou: “Ei! Cuidado para não abandonar este cartão como você fez com o do Pendrell!”

By Josi.


3 comentários:

eloisa viana disse...

Meninas... Eu vi a cena. Vi definitivamente eles próximos, as mãos juntinhas apoiados na mesa. Vocês conseguiram captar a alma do negócio.
Mas confesso, a primeira vez que meus olhos bateram nas palavras "Me leve para Georgetown", achei que seriam que ele Mulder usaria para colocar no cartão da Scully. Viajei claro (mas que shipper não quer que ele fale isso de uma vez?)

Que chegue logo o 5° ano! ;)

Anônimo disse...

Imaginei muitas cenas que deveriam ter sido feitas cada vez que aqueles dois se tocavam...ufa!

"Me leve para Georgetown" lembrou o filme e que saudade grande.

Yanne

Josilene disse...

ownnn... obg, meninas!