sábado, 7 de junho de 2014

Crônicas de dia dos Namorados - Parte II

BETHESDA, MARYLAND. 1995.

Mulder olhava sem ver para as águas do rio onde sua irmã caiu com o caçador de recompensas algumas horas atrás. Ele sabia que tinha tomado a decisão correta. Samantha havia concordado juntamente com Skinner. Como tudo havia dado tão ridiculamente errado? Haviam riscos, sérios riscos, mas eles haviam tomado todas as precauções para que pudessem sair dali com Scully e Samantha intactas. Apesar disso, num momento estavam todos parados na ponte e no outro Samantha caíra junto com aquele homem no rio.

Amanhecia e eles procuravam por um corpo. Mulder, por sua vez, esperava por algum sinal de que ela tivesse conseguido escapar. Ele passou a maior parte de uma sua vida buscando por sua irmã e agora ele a perderia de uma vez? E novamente por sua culpa...

Ele estremeceu, sentindo um frio profundo em seus ossos que não tinha muito a ver com o clima das primeiras horas de uma manhã de fevereiro. Mais uma vez o remorso o corroía. Aquele que o perseguia desde a adolescência aumentado várias vezes com a repetição de sua falta.

Quem em seu juízo perfeito colocaria sua irmã a tantos anos desaparecida numa situação como esta? Mas ela parecia tão segura do que estava fazendo! Além do mais, ele não poderia deixar Scully correndo risco de vida... de novo.

Ele ainda se sentia abalado por todo o caso com Duane Barry. Mulder que insistiu naquele caso, em ouvir aquele lunático e de certa forma até alimentou sua psicose, indiretamente contribuindo para que ele tivesse confiança em seguir em frente com suas ideias. Em seus melhores dias, ele admitia que Duane não era mesmo um lunático, mas o fato foi que, por causa dele, sua parceira foi sequestrada e quase morta. Foram os piores meses de sua vida. Ele ficou tão consumido pela culpa e pelo medo de não vê-la novamente que ele havia até relaxado com o cuidado com sua própria vida. E então Scully foi devolvida... tão fraca, praticamente desenganada pela equipe médica. Ele certamente não teria poder de salvá-la, apesar da irmã exotérica da Scully (quem diria...) ter lhe garantido que sua presença ali no quarto foi essencial.

Engraçado como em apenas dois anos, ela tinha se tornado uma parte tão importante em sua vida. Ele arriscaria qualquer coisa para mantê-la em segurança, o que seria uma tarefa árdua dado a natureza do trabalho deles não fosse ela mesma tão forte e capaz. É inegável que ela também já havia salvo seu traseiro pretensioso muitas vezes durante o tempo em que foram parceiros e o manteve são quando tentaram arrancar os Arquivos X de suas mãos.

Balançou a cabeça para clarear seus pensamentos e olhou para o horizonte repassando, não pela primeira vez, a cena da noite anterior na ponte em busca de algo diferente que ele pudesse ter feito. Ele sabia que era inútil se culpar, racionalmente ele sabia que não havia nada que ele pudesse mudar. Mas o fato permanecia de que ele tinha tido sua irmã de volta apenas para perdê-la novamente e desta vez sem esperanças de um reencontro. Mas não... eles não tinham um corpo. Ele ainda poderia estar viva... não poderia?

Ele ouviu um carro se aproximar e viu Scully descer dele. Ela estava com seus ferimentos limpos e cuidados. Mas ela ainda deveria estar no hospital. Ele teria sorrido, se estivesse no clima para isso, ao imaginá-la usando suas credenciais como médica e agente federal para receber alta antes do recomendado. Por mais que ele estivesse feliz em vê-la, viva e bem, os acontecimentos recentes fizeram apenas com que sua presença o alertas a deixar suas divagações de lado e encarar a realidade que se apresentava a sua frente.

***

Algum lugar ao norte do Alaska. Alguns dias depois.

Ela o mataria.

Assim que ele saísse daquele estado de coma, claro. Ele estava melhorando, não era? Ela repassou mentalmente os relatórios médicos e exames de Mulder e constatou pela enésima vez que uma leve e gradual melhora era sentida em cada um deles. Scully estava sentada numa cadeira num quarto de hospital onde passava boa parte do dia observando Mulder e ansiando pelo mínimo movimento dele. Até agora, nada.

O que ele estava pensando? Como ele se jogara no desconhecido daquela forma sem pensar em sua própria segurança? Ela não devia estar surpresa. Aquela não era a primeira vez que ele fazia algo do tipo e certamente não seria a última. Ela suspirou e levantou a mão para passeá-la distraidamente pelo cabelos macios dele. O corpo dele ainda estava numa temperatura baixa demais. Eles tinham muita sorte que ele tinha uma saúde de ferro, de outra forma ele não teria sobrevivido.

Ela entendia o por quê dele ter ido naquela empreitada sem lhe dizer nada. Ela não gostava das razões dele e não concordava com elas tampouco. Mas ela o entendia. Ele não queria que ela ficasse em perigo novamente. Ele foi bem claro naquele bilhete e ela sabia que ele não estava brincando. Ele havia até mesmo aceitado colocar a mulher que ele acreditava ser sua irmã em risco para salvá-la. Ele não a deixaria correr riscos por sua busca pela verdade, não se ele pudesse evitar. Ela sabia que ele se culpava pela sua abdução, apesar dela já ter deixado claro que aquilo era tolice. Como ele poderia ter previsto ou provocado algo assim? O trabalho deles envolviam riscos e ela estava consciente deles. Bom, ao menos agora ela sabia que não havia segurança em lugar algum, nem mesmo a aparência familiar de seu parceiro podia ser fonte inabalável de confiança. Como diabos aquele... aquele... homem conseguria mudar tão completamente sua forma física daquele jeito? Aquele foi um dos momentos mais aterrorizantes de sua vida não apenas pelo fato de estar sendo espancada, mas também pelo seu agressor ter o corpo de seu parceiro.

Um de seus maiores medos era ser traída de alguma forma por Mulder. Ela arriscava demais ao ficar ao lado dele em todos aqueles casos... não ortodoxos. E ela o fazia porque acreditava na causa dele. Talvez não em aliens e paranormalidade (quem sabe ela  ainda viria a encontrar provas científicas de tudo aquilo?), mas na busca pela verdade. Qualquer que fosse aquela verdade, eles não podiam confiar em ninguém além de um no outro. Até mesmo Skinner vivia em uma zona de lealdade meio cinza… pelo menos era como ela se sentia.

Ela se aprumou na cadeira e passou a apenas segurar a mão dele, enquanto pensava nos casos que eles investigaram desde que ela se recuperou e como eles pareciam viver brincando com a morte. E agora... até mesmo a irmã dele foi envolvida. Quer dizer, não exatamente sua irmã. Ela só podia imaginar como tudo aquilo o havia devastado. Então, ela, como sempre, tinha se enterrado no trabalho para não ter que pensar no lado emocional de tudo isso e tinha até mesmo concluído seu relatório. Havia muito ali que ela ainda não entendia, havia muitos elementos novos e estranhos naquele único caso. Era muita coisa para ser digerida de uma vez só...

"Vamos lá, Mulder. Volte! Eu não vou conseguir chegar até lá sem você..." Ela falou em voz alta e ficou estupefata quando os olhos dele se mexeram de leve. Ela estremeceu apertando mais a mão dele do que deveria, esperando que ele abrisse os olhos dessa vez, que ele voltasse a colocar sua vida de pernas para o ar com tantas questões antes inimagináveis para ela, algumas com respostas perturbadoras demais para serem aceitas tão facilmente.

Entretanto, ele não se moveu mais. Ela tentou se acalmar e mudar seus pensamentos para algo mais leve. Ele certamente ficaria ali por mais algum tempo e ela não sairia de seu lado mais do que o estritamente necessário.

***

Naquele ano, nenhum dos dois lembrou do dia dos namorados...

2 comentários:

eloisa viana disse...

As minhas unhas terminaram de quebrar ontem. Não apenas pela espera, mas por alguns pormenores da vida pessoal.

Fato: os primeiros anos são testes de ansiedade para nós que víamos a subjetividade daquilo que eles negavam.

Grrr... Mas foi dessa mesma maneira que não apenas nós nos apaixonamos por eles, mas eles por eles.

E aqui, claro, está bem a essência do que e/foi a espera para esse casal se declarar de uma vez!

Sigam em frente, que está bem fiel aos queridos <3

Josilene disse...

"que está bem fiel aos queridos" uma de minhas maiores preocupações era que fosse assim. obg, eloisa!