sábado, 6 de março de 2010

Não estamos mais sozinhos

I

Naquela noite de inverno ela pensou ter visto Deus. Ele lhe sorria através do fogo que ardia na lareira. Pela primeira vez sentiu medo. Temia sua fé. Temia acreditar. Não entendia porque algumas verdades eram-lhe sempre reveladas. Nunca quis explicações para os milagres que via todas as manhãs, nem para as sombras que a perseguiam à noite. Queria ser ingênua como as outras crianças, mas começou a questionar demais... Até que um dia, o Deus que a observava através da lareira se foi. Os milagres que a acompanhavam em cada amanhecer cessaram e as sombras que a ajudavam a adormecer se perderam na noite. A menina que se inundava de fé ficou cética. Pensava constantemente na verdade que nunca esteve lá fora, e sim dentro da sua mente – adormecida – perdida nas equações e fórmulas que a protegiam do mistério e do céu.

Numa tarde de verão, o menino magricela que voava com a bola em direção a cesta – caiu. Sentiu uma dor terrível. Sua mãe disse que logo passaria, mas ele não acreditava em previsões, confiava mais na médica que o atendeu no hospital e que o ajudou a combater a dor. À noite, sempre tinha que dividir a velha TV com sua irmã. Ela tinha oito anos, mas já conseguia ser insuportável. Aos domingos, era obrigado a vestir o terno azul escuro e acompanhar os pais até a sinagoga. Nunca teve fé, acreditava apenas no que via, na dor que ele odiava sentir, no medo que tinha quando seu pai se aproximava, na fumaça sufocante daquele homem estranho que os visitava. Um dia, enquanto jogava estratégia com sua irmã, uma luz incidiu na sala. Havia uma força tão profunda que fez todo o ambiente tremer. Seus pais haviam saído. Precisava proteger sua irmã. Sabia que tinha uma arma na gaveta. Num sobressalto chegou até lá e a pegou. Mesmo com a arma na mão não fez nada. Ficou encantado com a luz que vinha do céu e inundava a casa. Viu uma figura esguia e pequena se aproximar e, logo após, sua irmã flutuava para a noite, ia em direção a luz. Ele, que até então não acreditava em nada, passou a ser conhecido por todos, inclusive por seus pais, como “o estranho”, o menino que acreditava em homenzinhos verdes (que, afinal, nem eram verdes). Sabia que o homem do cigarro não duvidaria dele, mas depois daquela noite tal homem nunca mais apareceu. Quando olhava para o céu pensava no quanto estaria feliz se eles o tivessem levado. Vivia à espera do retorno deles, pensava que assim teria sua irmã de volta. Ele – o menino sem fé – queria acreditar. Precisava acreditar que a verdade estava lá fora, senão morreria.

II

Às vezes, ela tentava entender quais foram as verdadeiras razões que a fizeram entrar para o FBI. Quando, ainda na infância, um animal pequeno e repugnante morreu em suas mãos, começou a visualizar o limite que a separava do fim. Pensar na morte sempre lhe pareceu uma tortura, pois temia a escuridão. Então, numa manhã de domingo, decidiu ser médica (eis o paradoxo). Precisava conviver com o fim para suportá-lo. O corpo humano foi se tornando um livro, onde cada parte era minuciosamente estudada e catalogada. Poderia dizer os nomes e as funções de cada pedaço daquela complexa estrutura e, quanto mais conhecimento obtinha desses pedaços de carne, menos entendia as particularidades dos relacionamentos. A companhia dos seres inanimados da sala de anatomia não provocava dor, nem perda. Mesmo com poucos (ou nenhum) amigos, sentia que tinha uma vida normal, bem diferente do rapaz que, às vezes, via nos corredores do prédio Edgar Hoover. Ele nunca a viu. Estava sempre procurando algo. O olhar infantil escondia dor e medo, mas incidia paixão e vida. Era conhecido como “o estranho”, ficava horas olhando para o céu ou ouvindo ruídos de uma fita mal gravada – na ilusão de encontrar vida inteligente no espaço de absurdos que o cercava. Sempre teve vontade de se aproximar do “estranho”, mas não ousava. Sua busca sem sentido assustava-a, talvez porque se sentia obrigada a questionar os limites da ciência que a protegia dos fantasmas e dos milagres que a perseguiram na infância.

Quando terminou a faculdade de Psicologia e ingressou no FBI buscava entender o ser humano num contexto mais amplo, não a máquina biológica dissecada nos laboratórios de medicina. Era a complexidade emocional e a obscuridade de certas motivações que o fascinavam. Era perito em análise do comportamento, assim tornou-se o melhor agente na área. Teria uma carreira brilhante se continuasse a olhar para a terra, mas sabia que não suportaria, seus olhos tinham necessidade do céu. Era lá que buscava as explicações para os absurdos que o cercavam desde os doze anos. Um dia, revirando velhas pastas no porão do FBI descobriu uma série de arquivos sobre casos inexplicáveis, esquecidos em meio à poeira e à escuridão. Levou-os ao seu superior e, devido a sua insistência, foi designado para ordená-los e estudá-los para uso futuro. Desde então, todos os casos que investigava tinham uma conotação sobrenatural, evasiva, quase mágica. Ele, que tinha necessidade de olhar para o céu, ficou só num porão escuro, envolto por papéis que lhes sussurravam verdades que ele queria acreditar.

III

A noite não parecia ter fim. Durante todo o dia ouvira boatos sobre sua mudança de departamento, faria uma possível parceria com “o estranho”. Tentava imaginar o que poderia fazer ao lado daquele homem excêntrico, que não seguia regras, nem admitia enxergar a verdade através da ciência. Já sabia da sua incrível inteligência e capacidade inegável de lidar com criminosos, de invadir suas mentes doentias. Até que ponto ele ficou imune a toda essa loucura? Qual seria o limite entre o aceitável e o absurdo? Estava segura no mundo frio que havia criado. Entre pedaços de gente sem memória, sentimentos e indagações, podia continuar fingindo que tinha esquecido o medo e a escuridão. Agora tinha diante de si os olhos infantis que procuravam verdades bizarras, pela primeira vez não encontrou o sono, ficou acordada admirando o escuro que antes a assustava. No dia seguinte, quando abriu a porta da sala que ficava no porão do FBI, entendeu...

Sentado no sofá do seu apartamento mal iluminado, pensava numa forma de convencer seus superiores sobre a falta de necessidade de lhe darem um parceiro. Não precisava de alguém vigiando seus passos, ou ridicularizando suas teorias. Sempre esteve bem – só e na escuridão. Ter que explicar o redemoinho de indagações que invadem sua mente a cada novo caso seria maçante e constrangedor. Havia lido a ficha de sua futura parceira. Era uma jovem médica, com especialização em Ciências. Uma verdadeira enciclopédia, uma agente brilhante e correta. De tudo o que leu, sabia que a moça de olhos azuis e rosto sério andava numa fina linha com tamanha precisão que dificilmente aceitaria suas idéias pouco convencionais. Algo na face compenetrada que viu uma vez nos corredores do FBI o intrigou. De certa forma, pareceu-lhe familiar. Por um tempo ficou ao longe, observando-a. Aquela contemplação silenciosa lhe dava uma sensação de paz. Na manhã seguinte, quando a porta dos menos procurados pelo FBI se abriu, ele entendeu...

não estava(m) mais sozinho(s)





Star (de uma época mais inocente e mais leve).

12 comentários:

Yanne Celly disse...

Pôxa vida star...faz isso com agente não!!!!!

Tô sem palavras e pior com lágrimas nos olhos e duas crianças olhando pra mim e perguntado, o que foi mãe?

D+ menina...

bjs!

Kaline Vieira disse...

own... que lindo!!!

lindo lindo lindo lindo!

estou aqui com trocentas lágrimas de pusher que resolveram se libertar e estão brincando no meu rosto...

LINDOOOO!!!!!

sem palavras... amei!

saudade desses dois!

Josilene disse...

Bom, eu vou me repetir mais uma vez... rsrs

A-M-E-I esse texto! LINDO!

É tocante essa sensibilidade com a personalidade e a história deles...

Parabéns!

Jade disse...

lindo star,muito lindo
parabéns.
me emocionei de novo, adorei os dois post

Bracho disse...

Nossa...que delicadeza, que escolha perfeita de palavras...um texto lindo, comevente, que traz uma sensação de nostalgia...uma saudade triste ao lembrar dos agentes...A narrativa é tão bem feita que é facil visualizar as cenas...

Mas mesmo antes de ler, eu já imginava que seria assim. Mesmo sendo de um outro tempo...o texto é da Star..ou seja, garantia de excelência!

Yayá disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ariana disse...

Quando eu crescer quero ser igual a Star.

E ainda por cima morar num paraíso... Sem ser expulsa, claro!

Vanna disse...

Star, parabéns pelo texto, ficou lindo, tive que engolir o choro aqui dentro do escritório.

Beijos

ADRIANE disse...

Josi, não desista não, vamos continuar postando. se quiser ajuda estou aqui, gostaria de ajudar a continuar de onde está e ir até a última temporada postando-as todas aqui, um grande abraço a vcs meninas.

Josilene disse...

Obrigada, Adriane! =*

Danil BR disse...

Que lindo! Um texto para se guardar. Excelente desenvoltura do que da vida desses dois fantásticos humanos, parabéns à escritora. ;D

Rachel Bartolomei disse...

Sem palavras!
Lágrima nos olhos e nó na garganta... Lindo!
Parabéns Star. Bjo!