Naquela noite de inverno ela pensou ter visto Deus. Ele lhe sorria através do fogo que ardia na lareira. Pela primeira vez sentiu medo. Temia sua fé. Temia acreditar. Não entendia porque algumas verdades eram-lhe sempre reveladas. Nunca quis explicações para os milagres que via todas as manhãs, nem para as sombras que a perseguiam à noite. Queria ser ingênua como as outras crianças, mas começou a questionar demais... Até que um dia, o Deus que a observava através da lareira se foi. Os milagres que a acompanhavam em cada amanhecer cessaram e as sombras que a ajudavam a adormecer se perderam na noite. A menina que se inundava de fé ficou cética. Pensava constantemente na verdade que nunca esteve lá fora, e sim dentro da sua mente – adormecida – perdida nas equações e fórmulas que a protegiam do mistério e do céu.
Numa tarde de verão, o menino magricela que voava com a bola em direção a cesta – caiu. Sentiu uma dor terrível. Sua mãe disse que logo passaria, mas ele não acreditava em previsões, confiava mais na médica que o atendeu no hospital e que o ajudou a combater a dor. À noite, sempre tinha que dividir a velha TV com sua irmã. Ela tinha oito anos, mas já conseguia ser insuportável. Aos domingos, era obrigado a vestir o terno azul escuro e acompanhar os pais até a sinagoga. Nunca teve fé, acreditava apenas no que via, na dor que ele odiava sentir, no medo que tinha quando seu pai se aproximava, na fumaça sufocante daquele homem estranho que os visitava. Um dia, enquanto jogava estratégia com sua irmã, uma luz incidiu na sala. Havia uma força tão profunda que fez todo o ambiente tremer. Seus pais haviam saído. Precisava proteger sua irmã. Sabia que tinha uma arma na gaveta. Num sobressalto chegou até lá e a pegou. Mesmo com a arma na mão não fez nada. Ficou encantado com a luz que vinha do céu e inundava a casa. Viu uma figura esguia e pequena se aproximar e, logo após, sua irmã flutuava para a noite, ia em direção a luz. Ele, que até então não acreditava em nada, passou a ser conhecido por todos, inclusive por seus pais, como “o estranho”, o menino que acreditava em homenzinhos verdes (que, afinal, nem eram verdes). Sabia que o homem do cigarro não duvidaria dele, mas depois daquela noite tal homem nunca mais apareceu. Quando olhava para o céu pensava no quanto estaria feliz se eles o tivessem levado. Vivia à espera do retorno deles, pensava que assim teria sua irmã de volta. Ele – o menino sem fé – queria acreditar. Precisava acreditar que a verdade estava lá fora, senão morreria.
II
Às vezes, ela tentava entender quais foram as verdadeiras razões que a fizeram entrar para o FBI. Quando, ainda na infância, um animal pequeno e repugnante morreu em suas mãos, começou a visualizar o limite que a separava do fim. Pensar na morte sempre lhe pareceu uma tortura, pois temia a escuridão. Então, numa manhã de domingo, decidiu ser médica (eis o paradoxo). Precisava conviver com o fim para suportá-lo. O corpo humano foi se tornando um livro, onde cada parte era minuciosamente estudada e catalogada. Poderia dizer os nomes e as funções de cada pedaço daquela complexa estrutura e, quanto mais conhecimento obtinha desses pedaços de carne, menos entendia as particularidades dos relacionamentos. A companhia dos seres inanimados da sala de anatomia não provocava dor, nem perda. Mesmo com poucos (ou nenhum) amigos, sentia que tinha uma vida normal, bem diferente do rapaz que, às vezes, via nos corredores do prédio Edgar Hoover. Ele nunca a viu. Estava sempre procurando algo. O olhar infantil escondia dor e medo, mas incidia paixão e vida. Era conhecido como “o estranho”, ficava horas olhando para o céu ou ouvindo ruídos de uma fita mal gravada – na ilusão de encontrar vida inteligente no espaço de absurdos que o cercava. Sempre teve vontade de se aproximar do “estranho”, mas não ousava. Sua busca sem sentido assustava-a, talvez porque se sentia obrigada a questionar os limites da ciência que a protegia dos fantasmas e dos milagres que a perseguiram na infância.
Quando terminou a faculdade de Psicologia e ingressou no FBI buscava entender o ser humano num contexto mais amplo, não a máquina biológica dissecada nos laboratórios de medicina. Era a complexidade emocional e a obscuridade de certas motivações que o fascinavam. Era perito em análise do comportamento, assim tornou-se o melhor agente na área. Teria uma carreira brilhante se continuasse a olhar para a terra, mas sabia que não suportaria, seus olhos tinham necessidade do céu. Era lá que buscava as explicações para os absurdos que o cercavam desde os doze anos. Um dia, revirando velhas pastas no porão do FBI descobriu uma série de arquivos sobre casos inexplicáveis, esquecidos em meio à poeira e à escuridão. Levou-os ao seu superior e, devido a sua insistência, foi designado para ordená-los e estudá-los para uso futuro. Desde então, todos os casos que investigava tinham uma conotação sobrenatural, evasiva, quase mágica. Ele, que tinha necessidade de olhar para o céu, ficou só num porão escuro, envolto por papéis que lhes sussurravam verdades que ele queria acreditar.
III
A noite não parecia ter fim. Durante todo o dia ouvira boatos sobre sua mudança de departamento, faria uma possível parceria com “o estranho”. Tentava imaginar o que poderia fazer ao lado daquele homem excêntrico, que não seguia regras, nem admitia enxergar a verdade através da ciência. Já sabia da sua incrível inteligência e capacidade inegável de lidar com criminosos, de invadir suas mentes doentias. Até que ponto ele ficou imune a toda essa loucura? Qual seria o limite entre o aceitável e o absurdo? Estava segura no mundo frio que havia criado. Entre pedaços de gente sem memória, sentimentos e indagações, podia continuar fingindo que tinha esquecido o medo e a escuridão. Agora tinha diante de si os olhos infantis que procuravam verdades bizarras, pela primeira vez não encontrou o sono, ficou acordada admirando o escuro que antes a assustava. No dia seguinte, quando abriu a porta da sala que ficava no porão do FBI, entendeu...
Sentado no sofá do seu apartamento mal iluminado, pensava numa forma de convencer seus superiores sobre a falta de necessidade de lhe darem um parceiro. Não precisava de alguém vigiando seus passos, ou ridicularizando suas teorias. Sempre esteve bem – só e na escuridão. Ter que explicar o redemoinho de indagações que invadem sua mente a cada novo caso seria maçante e constrangedor. Havia lido a ficha de sua futura parceira. Era uma jovem médica, com especialização em Ciências. Uma verdadeira enciclopédia, uma agente brilhante e correta. De tudo o que leu, sabia que a moça de olhos azuis e rosto sério andava numa fina linha com tamanha precisão que dificilmente aceitaria suas idéias pouco convencionais. Algo na face compenetrada que viu uma vez nos corredores do FBI o intrigou. De certa forma, pareceu-lhe familiar. Por um tempo ficou ao longe, observando-a. Aquela contemplação silenciosa lhe dava uma sensação de paz. Na manhã seguinte, quando a porta dos menos procurados pelo FBI se abriu, ele entendeu...
Há exatamente 18 anos atrás, Mulder e Scully se viam pela primeira vez...
Mulder: Quantas vidas diferentes teríamos levado se tivéssemos feito escolhas diferentes... Nós ... Nós não sabemos.
Scully: E se houvesse apenas uma escolha e todos as outras estivessem erradas? E houvessem sinais ao longo do caminho para nos avisar...
Mulder: Mmm. E todas as ... escolhas, então, nos levariam a esse mesmo momento. Um caminho errado, e... nós não estaríamos sentados aqui, juntos. Bem, isso diz muito. Isso diz muito, muito, muito... Isso é provavelmente mais do que podemos entender a esta hora da noite...
E se esse encontro não tivesse acontecido?
Scully...
Não perceberia o verdadeiro valor de um trabalho em equipe ao ganhar um Chaveiro Apollo 11...
Não chegaria a beira da morte apenas para ser salva por um implante alienígena na nuca...
Nem teria estado presente em uma verdadeira chuva de sapos...
Jamais saberia que era ou poderia ser imortal...
Nunca teria feito uma tatuagem tão significativa...
Não saberia o quanto o beisebol pode ser um esporte interessante...
Não teria aprendido a duvidar das verdades provadas e consolidadas...
Mulder...
Não teria usado um crucifixo no pescoço...
Não saberia o que é gostar tanto de alguém à ponto de desistir até mesmo do que ele pensava ser o centro da sua vida...
Nunca descobriria como a ciência poderia positivar e fortalecer suas teorias...
Nem teria para quem repassar a linda [really?!] boneca de família...
Não teria se emocionado de forma tão pessoal com o milagre de uma nova vida...
Nem voltado da morte quando todos já o tinham enterrado...
Não teria aprendido a duvidar das verdades fáceis e óbvias...
Ambos...
Não saberiam como é quase morrer para se salvar... ou salvar ao outro...
Não teriam conhecido Daryl Musashi... e vencido um video game assassino...
Nunca entrariam numa casa mal assombrada em pleno Natal...
Nem virariam personagem de cinema...
Ou conhecido um gênio dos 3 desejos...
Não teriam William...
Nem conhecido o verdadeiro amor...
...e fugido com ele para bem longe da escuridão.
Mulder: Eu não tenho certeza se funciona dessa maneira.
Eu acho que talvez a escuridão encontre você... e eu.
Scully: Eu sei que ela encontra.
Mulder: Mas deixa ela tentar...
E nós...
Nós não teríamos nos conhecido, nos tornado amigos... nem estaríamos aqui juntos... e isso diz muito, muito, muito...
Resumo: Ao investigar a morte trágica de uma criança num parque de diversões, Mulder e Scully descobrem que forças estranhas podem estar atuando naquela família.
Comentários:
[Josi] Bom, este é um dos episódios de Arquivo X que me dá medo de verdade, um que me faz achar a segunda temporada a mais assustadora. Gosto muito dele. Ele é estranho...
Acho que o medo na gente se dá principalmente porque acontece com crianças, né? O que ele diz sobre a inocência não deixá-lo imune é muito forte. A gente sempre pensa que enquanto se é criança não se tem maldade... Bom, no caso a criança realmente não tinha culpa, mas foi atingida pelo mal e com uma força incrível.
Certa vez eu o assisti apenas porque queria assustar minha irmã... quando eu digo que tenho medo de um episódio, ela assiste e diz "ah, era pra ter medo?" (ela não tem medo de filmes de terror ou suspense). Chata! Dessa vez ela ficou caladinha. A não ser nas horas em que ela ria das piadas do Mulder ou dele mesmo... aff...
Tudo bem... Se eu fosse a Scully, teria ficado louca com a ideia de uma matéria que nem é orgânica nem inorgânica. Então é o quê? Resposta de Mulder: "Teoricamente, isso não existe!" Ah, tá... obrigada...
Então o Chuck (já disse que eu gosto muito dele? Pois é... ele é legal!) diz que tinha um amigo que fez se materializar não sei o que num jantar ou algo que o valha... daí a Scully solta a sua bela tiradinha:
- Pena que você não tirou uma foto na hora, assim veríamos a Santa Ceia no seu computador.
Nossa... amo as piadinhas da Scully também. São sempre ótimas. E o sorriso do Mulder na hora? Ai que lindo... Notaram o modo como ela olha pra ele enquanto ele ri? Tadinhos, já estavam perdidos e não sabiam... rsrsrs
O episódio continua com revelações ainda mais perturbadoras (isso tá parecendo com a descrição de Mulder dos círculos nas plantações em All things... rs), culminando com um final... hã... perturbador?
A cena do exorcismo é bem esquisita e a fala de um dos Calusari para Mulder é de arrepiar: "Não olhe para ele. Olhe para outro lugar ou ele o reconhecerá".
E ele ainda termina com essa, também para Mulder: "Está acabado, por ora. Mas seja cuidadoso. Ele o conhece agora". Tá... Essa me assustou de verdade. Apesar de assustada, eu sempre penso: Meu filho, Mulder não tem medo da escuridão não, tá? Não é a sina dele sucumbir a isso...
Mas, eu acho que não faria falta a cena do garoto fantasma quase esfaqueando a Scully e ele parando justamente na hora em que o outro é exorcizado... [/Josi]
[Starbuck] Tentei achar uma outra palavra para descrever esse episódio, mas acho que a melhor palavra já foi usada pela Josi: perturbador.
Lembro que quando vi esse menino em Conduit, fiquei impressionada com o olhar dele... a forma como ergue uma sobrancelha...
E acho que o pessoal da produção também ficou, pois o trouxe de volta justamente para fazer Os Calusari... e não é qualquer criança que nos daria essa impressão de estar endemoniada...
A cena do exorcismo é .... ..... .... aff... PERTURBADORA....
Sem dúvida alguma, um dos melhores episódios de XF e que contribuiu com o ar sombrio que permeou toda a segunda temporada... [/Starbuck]
[Fagner] É definitivamente um dos meus preferidos! Sempre o indico para as pessoas verem.
Pontos altos:
- Scully cética, tentando achar uma explicação para tudo (como sempre);
- Mulder crente e meio apavorado;
- Teaser fortíssimo, com o bebê sendo esmagado pelos trilhos;
- Menino possuído e forças estranhas assombrando uma família;
- Mix de O Exorcista e A Profecia muito bem realizado!!!
- Primeira aparição do amigo de Mulder crente, Chuck, aquele que aparece em Badlaa, Leonard Betts e vários outros!!! [/Fagner]
Na época que eu assisti esse episódio, gravei e botei para minha mãe ver. É que meu avô era romeno e Os Calusari são sacerdotes daquele país (inclusive eles falam nessa língua, durante o exorcismo e quando o menino fala). Minha mãe adorou, disse que várias coisas que eles explicaram durante o episódio realmente são crenças folclóricas da Romênia... e ainda entendeu várias das frases ditas em romeno. Cool. [Adriana]
[Cleide] Gente, esse foi um dos episódios mais arrepiantes. A primeira vez que assisti foi sozinha, a Record passava AX tarde da noite e confesso que suei frio... Era inverno, eu estava debaixo das cobertas assistindo, na cena do exorcismo, Deus me livre!!!! Saí debaixo das cobertas, sentei na beiradinha da cama... putz!
E a sequência, para matar de vez o telespectador de aflição, e conjugada com a pobre Scully com o agênere [esse é um termo que designa espírito materializado que passa por encarnado], sozinha, na casa escura. Dá vontade de gritar, quando ele levanta a faca e a gente pensa... "nossa, agora ele mata a ruiva", e o exorcismo acaba e a materialização vira cinzas.
O que mais perturba é a frase do exorcista para Mulder: "Está tudo bem por enquanto, mas cuidado, ele te conhece!" E Mulder com aquela cara de paisagem, logo após a singela notícia que o diabo o conhece! Cruzes!
Confesso que eu esperava que Mulder confrontasse isso de novo na série, à moda de Tooms, Pfaster, Modell...
Outra vez, assisti esse episódio em grupo para discutirmos os assuntos paranormais que são tratados. Tem uma hora que Mulder manda Scully sozinha ir ajudar a mãe do menino que foi embora com o espírito do mal materializado... cruzes! Eu disse: Gente, mas o Mulder não hesita em mandar a Scully encarar essas situações, aí minha amiga disse: "é porque ele confia nela, sabe o quanto ela é poderosa... coisas do amor".
Isso é mostrado sutilmente, nas entrelinhas... mas é muito legal como Mulder a trata como igual, ele é bem despido de preconceitos, não é sexista. A Scully é mais na defensiva. No episódio Milagro, uma das falas do Padget mostra isso: como ela se esforça para se manter durona, em um universo tão masculino. Eu também gosto muito disso, mostra maturidade emocional de Mulder que não se vê ameaçado por ter uma parceira que é tão boa quanto ele...
Ah, aquela hora em que Mulder consulta o amigo especialista em paranormalidade é muito bacana, adoro quando ao colocar o filtro na imagem, eles vêem a concentração do ectoplasma. E a idéia do Vibuti [minha professora de yoga esteve na India, visitou o Sai Baba, e trouxe vibuti de lá, acreditem ou não...]. O jeito como o episódio é pesquisado e faz um mix com teorias que existem, é que nos dá tanta credibilidade e que faz do episódio mais apavorante... Do jeito que são explicados, há quem acredite que algo do tipo é possível... e isso é a alma de Arquivo X, coisas tão mirabolantes, tão bem explicadas, que você se pega pensando... " e se isso acontecesse?" [/Cleide]
[Ariana] Enquanto via Os Calusari, com aquele menino endemoniado, me lembrei daquela música do Serginho Mallandro "Um capeta em foram de guri". Poderia ter sido inspirado nesse moleque, ó:
"Co-nhe-ci um capeta em forma de guri
Co-nhe-ci um capeta em forma de guri
De uma família tradicional
Surgiu um menino que era mesmo infernal." [/Ariana]
Quotes:
Scully: Então você está dizendo que um fantasma matou Teddy Holvey? Alguém fez uma verificação na câmera que tirou a fotografia? A lente ou a chapa de pressão? Mulder: Tudo foi verificado, Scully. Acho que isto é claramente algum tipo de atividade de almas perdidas.
Scully: Mulder, é por isso mesmo que vemos uma foto de jornal com a face de Jesus aparecendo entre a folhagem de um olmo. É uma ocorrência ao acaso de luz e sombra. Mulder: Para chegar aos trilhos, Teddy Holvey se soltou do cinto protetor que a mãe dele tinha atado a uma pia. Scully: Já vi gente de dois anos escapulir.
Mulder: O médico colocou o cinto no filho de 2 anos e constatou que era impossível a criança se livrar por si mesma. Então, exceto se Teddy era a reincarnação de Houdini... Dr. Burks: O que seria um Arquivo-X por si só.
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Mulder: Você tem que ir à casa da Sra. Holvey. Scully: Por quê? Mulder: O menino que saiu com a Sra. Holvey não era Charlie. Scully: Ela saiu com um fantasma?
Mulder: Ou um espírito. Não tenho certeza. É o que vimos na foto. A velhinha tentava proteger a família contra ele. Já matou três pessoas. Tem que ir à casa da Sra. Holvey antes que aconteça de novo. Scully: O que você vai fazer? Mulder: Obter ajuda.
Outras Imagens de The Calusari:
Que outra série conseguia ser tão ousada ao ponto de colocar uma cena dessas no ar?